fechar

Bookmark e Compartilhe

Imprimir

Quinta-feira, 7 de agosto de 2008 - 07h18 - Contigo

Ticiane Pinheiro fala sobre perda do neném: 'Não tenho mais lágrimas, chorei todas'

''No começo foi muito difícil. Ficava me perguntando: 'Por que isso aconteceu comigo?' Você quer encontrar uma resposta. Mas não gosto que as pessoas sintam pena de mim. Acho que hoje sou mais forte.''É assim, falando sobre sua dor, que Ticiane Pinheiro, 32 anos, se recupera. Ela perdeu o primeiro filho, Raphael, um dia depois de completar a 22ª semana de gestação. ''Foi um horror, um choque'', relembra. Para tentar esquecer, Ticiane e o marido, o publicitário Roberto Justus, 53, seguiram para Miami, Estados Unidos, onde passaram 12 dias - a viagem já estava previamente marcada para comprar o enxoval do menino. Na sexta-feira (1º), dois dias após retornar ao Brasil, a apresentadora da Record recebeu Contigo! em sua casa para falar, com exclusividade, sobre seu sofrimento - e como está dando a volta por cima.

''Eu tenho altos e baixos'', assume Ticiane. Compreensível. Na manhã de 13 de julho, um domingo, ela descobriu que o coração do bebê havia parado, após sentir-se mal durante a noite anterior. Precisou ser internada e tomou remédios para induzir contrações. Submeteu-se a um parto normal. ''Todo o processo foi muito difícil. Mas fico pensando que, se meu nenenzinho tivesse vindo ao mundo, sofreria demais com o coraçãozinho fraco'', diz Ticiane.

Para enfrentar a dor da perda do bebê, que nasceria em novembro, a apresentadora se apóia na família e no marido. ''Parece que a gente se uniu bem mais'', reflete a apresentadora, sobre sua relação com Justus. Agora, Ticiane retoma, aos poucos, sua rotina. ''Quando você volta para a realidade é difícil, dá um vazio. Mas assim que meu médico der o aval, a gente vai tentar de novo ter o nosso filhinho. A gente se apóia nisso.'' E completa: ''Quero dar o exemplo para as pessoas que perdem bebê. Você pode refazer sua vida e ser feliz''. Confira a entrevista.

Como está se sentido agora, depois de tudo o que passou?
''Eu tenho altos e baixos. Foi muito difícil. Nos primeiros dias, eu chorava muito. Roberto também. Minha mãe (Helô Pinheiro, 65) passou mal quando soube. Meu pai (Fernando, 68) e minhas irmãs (Kiki, 38, Georgeane, 35) sofreram. Era um neném muito desejado. Eu brincava que era o primeiro Garoto de Ipanema porque minhas irmãs têm meninas. Eu queria um menino e Roberto também. Sempre achei que seria mãe de um menino. Então, na hora que aconteceu tudo, o sentimento é inexplicável. Você fica se perguntando por quê? Por que isso aconteceu comigo?''

Até aquela noite você não sentiu nada diferente?
''Nada. Eu estava superbem. Passei o dia inteiro bem. Fui jantar fora. Quando voltei, comecei a sentir uma dor, tipo uma contração. Passava a mão e sentia a barriga dura. Eu achei estranho porque estava doendo, mas era suportável. E tinha um pouquinho de sangramento. Liguei para meu médico desesperada. Era um pouco mais de meia-noite. Ele falou que se começasse a sangrar muito para eu ligar de novo. Como parou, fomos ao consultório só no dia seguinte. Na manhã de domingo, segui para lá e o ultra-som deu que o coração do neném havia parado. Foi um desespero. Aí fomos correndo para o hospital. Foi um horror. Eles me induziram ao parto normal. Eu tomei um monte de remédios na veia para ter as contrações, estava sem dilatação nenhuma. Na segunda-feira estourou a bolsa e eu fui para a sala de cirurgia. O parto durou mais ou menos uma hora.''

O trauma foi maior porque teve de fazer o parto?
''Eu dormi. Não quis ver nada. Mas o trauma maior é passar por todo esse sofrimento de contração, dor, parto normal e não ter o bebê. Toda mulher agüenta a dor do parto, é forte. Mas tem uma recompensa maravilhosa, né? Eu passei por tudo e não tive essa recompensa.''

Você viu o bebezinho?
''Não.''

O médico explicou para você o que aconteceu?
''Ele explicou, mas eu não quis entender. Prefiro acreditar que era para acontecer. O bebê era perfeito. Foi alguma coisa que afetou o coração. Quando fiz o exame morfológico, aos três meses, estava tudo perfeito com meu neném. Eu saí do consultório tão feliz. Até os três meses a gente fica insegura porque sabe que é delicado. Com quatro meses havia umas coisinhas que não estavam formadinhas. Mas nada que a gente fosse pensar que aconteceria o que aconteceu. Eu fazia todos os exames e estava tudo normal. Para mim e para o meu marido foi um choque. Na hora que acontece você acha que vai morrer. Hoje eu me apego às pequenas coisas. Fico pensando que se essa criança tivesse vindo ao mundo ia sofrer demais com o coraçãozinho fraco. Não ia poder jogar bola ou fazer as coisas por causa do coração.''

Você não quer saber o que aconteceu para evitar algo da próxima vez?
''Não porque eu sei que foi uma má formação do feto. Não foi nada comigo. Da próxima vez, se Deus quiser, vem com a saúde perfeita. Meu médico me disse que Roberto é supersaudável e eu também.''

Em algum momento sentiu culpa ou achou que fez algo errado?
''Eu sou muito certinha com tudo em minha vida. Eu me alimentava para o bebê. Por exemplo, odeio verdura e legume, mas comia. Comprei castanha-do-pará por causa do zinco. Parei de fazer musculação. O médico falava que podia, mas eu não queria forçar, passei a gravar em dois dias em vez de um, tentava comer a cada três horas. Algumas pessoas disseram que eu abusei porque dançava o Créu no programa ou tomava café... Tem umas perguntas bobas que passam por sua cabeça, mas meu médico disse que não tem nada a ver. Fiz tudo certo, inclusive o pré-natal. Você quer sempre encontrar um porquê, achar uma resposta. Mas no fundo sei que não é nada disso. Era a formação do meu bebê.''

Houve um caso similar em sua família?
''Minha mãe perdeu um menino antes de mim. Mas também não sei como. Se ele tivesse nascido, eu não estaria aqui. Minha mãe queria ter um menino (Fernando, 30, é o caçula de Helô Pinheiro) e por isso teve quatro filhos.''

Buscou conforto na família?
''No começo eu ficava me mostrando muito forte para minha família. Mas para o meu marido não. Eu chorava toda noite no colo dele, com ele. Mas para meus pais e minhas irmãs queria me mostrar forte para eles pararem de sofrer. Eu acho que fingindo isso, fiquei forte.''

O que Roberto falava quando você chorava?
''Parece que a gente se uniu mais. Durante todo o tempo ele ficou a meu lado, me dando força. Eu sei que ele também estava se mostrando forte pra mim. Por dentro ele estava muito doído. Os filhos dele também sofreram muito, sempre vinham com um presentinho para o irmão. Todo o processo foi muito difícil. Para me dar força, ele queria se mostrar forte. Eu falava para ele chorar e Roberto não queria. Então, disse: ‘Se você não chorar comigo, vai chorar com quem?’ A gente se abraçava e chorava muito. Mas Roberto disse que, se era para o bebê sofrer, Deus só quis aliviar nossa dor.''

Acredita que a relação amadureceu?
''Ele me deu muito carinho. Um cuidou do outro.''

Na viagem a Miami, falaram sobre o assunto?
''Sim, conversamos bastante. Ele me conforta dizendo que daqui a pouquinho a gente vai ter nosso filhinho. A gente vai tentar de novo. Um pediatra amigo da família falou que quanto mais eu falasse do assunto, melhor. Para não ser uma tristeza eterna. Foi muito difícil para nós dois. Agora, a gente quer pensar em coisas boas para atrair coisas boas.''

Você fala muito em Deus, tem religião?
''Eu acredito em tudo o que faz o bem. Fui criada no catolicismo. Mas agora, pelo meu bebê, eu estava estudando o judaísmo porque pretendo me converter. Eu queria que meu filho tivesse uma religião, acreditasse em algo. Acho que ele ia ficar dividido entre escolher entre a religião do pai e a da mãe. Como Roberto é judeu, eu queria que meu filho nascesse em ventre judaico. Acho bonito a família ter uma religião só. Eu sempre acreditei em Deus.''

É o maior trauma de sua vida?
''Com certeza. Eu nunca lidei com a morte tão próxima de mim.''

Tirou uma lição disso tudo?
''Acho que quando Deus fecha uma porta, vai abrir uma janela. Eu acredito nisso. Algo bom está por vir. Não desisti do meu sonho. Meu filho vai nascer, vai vir saudável. Eu tento tirar da dor uma coisa boa. A vida tem tropeços. Eu fui para o fundo do poço nessa minha dor. De repente, se o neném viesse ao mundo iria sofrer. Isso é o que me dá força. Eu tirei forças não sei de onde. Acho que hoje sou uma pessoa mais forte. Não sabia que tinha essa força. Na semana que fiquei mal, eu não queria sair de casa. Eu me tranquei. Fui só até a casa da Melissa (Wilmam, mulher do apresentador Otávio Mesquita) que é minha melhor amiga e mora superperto.''

O que foi mais difícil superar?
''À noite, às vezes, me dá um vazio. Grávida, você tem um companheirinho dentro de você. Eu não cheguei a sentir o bebê se mexer. E queria muito isso, para me sentir mãe. Eu não tive esse privilégio de sentir, teria só a partir dos seis meses. Acho que, por outro lado, foi melhor... É claro que a gente já tem uma ligação, o bebê está dentro da sua barriga. Quando eu perdi, senti um vazio muito grande. Grávida, eu não estava mais sozinha, nem na vida nem dentro de mim. Hoje eu sinto um vazio, geralmente no fim da tarde. Caiu a noite, fico pior... Agora já estou superando.'

Quais os planos para voltar a engravidar?
“A gente vai deixar rolar, ver o que acontece. Assim que o médico der o aval, não vou evitar. Roberto quer muito. A gente quer duas vezes mais agora. Antigamente, Roberto brincava que teria o filho por mim, pois ele já tem três (Ricardo, 25, Fabiana, 21, do casamento com Sasha Chryzman, e Luiza, 15, da união com Gisela Prochaska). Hoje ele fala que quer por nós. A vontade dele é muito maior. Ele estava muito feliz em ser pai novamente. Mas agora, com tudo isso que passamos, o bebê que virá será ainda mais desejado. Mas não estou superansiosa em engravidar, apesar de amar se estivesse esperando um bebê de novo. É uma sensação muito gostosa, a gente se acha mais bonita, se sente protegida. É muito legal ver a barriga crescendo.”

Se for menino, pretende colocar o mesmo nome?
“Sim. Raphael era o nome dele. Ele vai voltar e eu acho que vou pôr o mesmo nome. Conversei com Roberto e ele quer também. Ele virou um anjinho e está me protegendo. Eu quero homenageá-lo. Acho o nome lindo. Quando eu soube o significado, que é ''Deus cura'', não quis mais mudar. Se for menina, vamos pensar.”

O que fez com os presentes que ganhou?
''Todos os presentes que ganhei (para o bebê), guardei. Ainda não tinha feito o quarto, então só tenho as roupinhas. Guardei e pronto. Nesta semana recebi um presente que veio de Fortaleza. Eu abro e guardo. Não fico remexendo. Eu senti toda a dor que tinha de sentir. Não gosto de ficar em depressão. Eu não sei de onde tiro essa força, mas acho que é porque tenho muito amor em volta de mim, até de pessoas que não me conhecem pessoalmente.''

Como tem feito para superar ''o vazio no fim de tarde''?
''Eu não gosto de ficar sozinha, adoro gente. Antes tinha alguém comigo, uma companhia. E faltava pouquinho para ele chegar... Parecia que ele me protegia. Retornar para a realidade foi difícil. Eu fui ao cabeleireiro e as pessoas comentaram, deu uma tristeza... Mas agora eu já abro um sorriso quando a pessoa vem falar. Não tenho mais lágrimas. Já chorei todas.''
 

TAGs: ticiane pinheirosroberto justosgrávidaperda do bebe

Comentários Comente esta notícia

Deixe seu comentário